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A conexão que desconecta

Por Renata K. de Souza Erdos

O uso diário da Internet através dos smartphones tem gerado mudanças não só comportamentais, como também psicológicas e emocionais nas pessoas. O senso de imediatismo vem aumentando na mesma proporção que aumenta a velocidade do wi-fi. Consequentemente as pessoas têm se tornando cada vez mais intolerantes – impacientes; mais dispersas – podem apresentar dificuldade em manter o foco em atividades que exigem tempo prolongado de atenção; e ansiosas – dificuldade em viver o momento presente.

O comportamento frequente de olhar o celular para checar redes sociais, notícias e emails já virou um hábito. Que sejam alguns segundos que a pessoa se sinta entediada (seja no trânsito, em uma fila de espera, ou até mesmo em uma conversa) essa é a deixa para se distrair olhando a internet através do aparelho (rotina). A recompensa desse comportamento é muito clara: imediatamente recebemos uma enxurrada de estímulos/informações – ficamos sabendo o que está acontecendo no mundo, na vida dos amigos, se fomos requisitados através de mensagens, curtidas, emails… Este ciclo (deixa – rotina – recompensa) é suficiente para tornar um comportamento um hábito. Quando um hábito surge, o cérebro para de participar totalmente da tomada de decisão – sim, nosso cérebro é preguiçoso! Os hábitos, dizem os cientistas, surgem porque o cérebro está o tempo todo procurando maneiras de poupar esforços. Um cérebro eficiente nos permite parar de pensar em comportamentos básicos – como andar e escovar os dentes – de forma que possamos investir energia mental em invenções e desafios. A não ser que se lute conscientemente contra esse “loop” o padrão irá se desenrolar automaticamente.

Um estudo publicado por um pesquisador da Duke University lá em 2006 (quando ainda nem existia o 4G!) descobriu que mais de 40% das ações que as pessoas realizavam todos os dias não eram decisões de fato, e sim hábitos. Hábitos podem ser mudados, se entendermos como eles funcionam. Em algum momento todos decidimos conscientemente o que queremos, depois paramos de fazer escolhas e o comportamento se torna automático. Aprendendo como isso acontece, é possível reconstruir esses padrões do jeito que quisermos.

Checar o celular dezenas de vezes ao dia (segundo estudo realizado pela Global Mobile Consumer Survey os usuários olham para seus aparelhos, em média, 78 vezes ao dia) já se tornou um comportamento padrão. Um hábito que muitas vezes faz com que a pessoa esteja mais conectada ao mundo virtual do que envolvida no momento real. Quanto mais ligados estivermos em uma vasta rede de conexão social, mais solitários nos sentimos e mais ansiosos por contatos e informações.

E paaaah Estamos de volta ao “loop”!


O perigo disso tudo?! Levarmos a vida desconectados do momento presente, não usufruir o momento real, não vivermos plenamente as experiências diárias. Situações muito bem satirizadas pelo produtor, roteirista e comediante Conan O`Brien no vídeo acima.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental abordagens baseadas em Mindfulness e Atenção Plena, caracterizadas pela autorregulação da atenção para a experiência presente, capacitam o indivíduo a perceber quando processos automáticos estão ocorrendo, de forma que o possibilita a uma maior tomada de consciência de seus processos mentais e de suas ações. É uma maneira de experimentar o mundo conectado e ciente no momento presente vivendo a experiência diretamente.





Duhigg, C. O poder do hábito: por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios.

Leahy, R.L. Livre de ansiedade.