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As Crianças Internas nos Relacionamentos Adultos

Por Kelly Paim

Os relacionamentos, para muitas pessoas, significam enfrentar os próprios “demônios internos”, pois as relações interpessoais são, geralmente, onde os indivíduos mais sentem a vulnerabilidade que está no centro da composição psicológica humana. Com isso, a interação entre duas pessoas é influenciada por “feridas” emocionais pessoais que geram “pontos cegos” no entendimento racional dos acontecimentos. Ao se sentirem ameaçados e vulneráveis, as pessoas tendem a se defender automaticamente com seu instinto de luta e fuga. No entanto, a sensação de ameaça, muitas vezes, está baseada em memórias traumáticas de dores do passado, principalmente dores de vivências precoces, tais como: desamparo, abandono, negligência, abuso, humilhação e rejeição. As marcas emocionais doloridas decorrentes de necessidades emocionais não supridas numa fase em que a estrutura emocional está em formação (infância e adolescência) acompanham as pessoas ao longo da vida. Deste modo, situações vivenciadas nas relações adultas são como passagens para uma máquina do tempo de memórias emocionais, quando adultos voltam a se sentirem como crianças outra vez (Simone-DiFrancesco, Roediger & Stevens, 2015).

O escultor ucraniano Alexandre Milov apresentou uma obra chamada “Love” no festival Burning Man deste ano, em Nevada, EUA. O artista representou muito bem as relações humanas, colocando duas crianças no interior de corpos adultos. Enquanto os corpos adultos estão de costas um para o outro, as crianças internas se procuram. Jeffrey Young (1990) ressalta que a busca desesperada ainda por necessidades infâncias não supridas, muitas vezes, faz com que os adultos usem estratégias defensivas pouco assertivas que os afastam das suas necessidades emocionais, ou seja, agem na direção contrária a uma troca emocional mais satisfatória, ficando de costas para o outro, como Alexandre Milov exemplificou em sua obra.

Nos últimos tempos, a interação complexa entre duas pessoas, com todas as bagagens da história de cada cônjuge (a criança vulnerável que existe em cada um), tornou-se um foco importante da terapia do esquema. Esta abordagem sugere maneiras de explicar e resolver obstáculos para que as relações possam ser mais satisfatórias e saudáveis. A terapia do esquema para casais tem seu foco na satisfação das necessidades emocionais humanas básicas, como a conexão e o vínculo seguro. Para isso, o terapeuta trabalha nas estratégias ineficazes utilizadas pelos cônjuges para a obtenção de tais necessidades, ajudando-os no desenvolvimento de maneiras mais saudáveis para este fim.


Love, de Alexandre Milov