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O difícil adeus ao companheiro

Por Milene Petry

A presença de animais de estimação nas residências brasileiras é muito comum, chegando a representar mais de 50% destes. Com o aumento número de pessoas que vivem sozinhas, aumenta também a presença de animais de estimação nos lares. Vínculos importantes se estabelecem com esses “amigos” que proporcionam a seus donos viverem um amor e a aceitação incondicional. Esse dado confirma o velho ditado que diz que “os cães são os melhores amigos dos homens”.

Desde crianças a presença do animal de estimação é constante, sejam pela convivência direta ou pelas imagens de animais em histórias, desenhos animado, filmes ou brinquedos. Esse contato estimula a criança a desenvolver valores e conceitos de amizades e responsabilidade por exemplo. Crianças que não possuem irmãos podem perceber seu pet como um irmãozinho especial ou como um amigo e companheiro para as brincadeiras.

Essa relação de afeto também acontece com adultos que escolhem ter um animal de estimação. Os animais tornam-se companheiros fiéis, estabelecem vínculos significativos com seus donos e tornam-se importantes membros das famílias, podendo interferir na rotina e nos planos (de férias, por exemplo) de seus donos. Entretanto, sabe-se a permanência desses bichinhos é limitada, uma vez que os animais de estimação têm uma vida mais curta que a dos humanos e vivenciar a perda desse companheiro é quase inevitável.

O luto pelos animais de estimação ocorre da mesma forma que o luto por humanos. Os mecanismos neurobiológicos responsáveis pela modulação entre a amigdala (responsável pelo controle das emoções) e do córtex pré-frontal (regula a atenção) mantém o foco nos sentimentos de tristeza e mantém os pensamentos recorrentes relacionados à quem faleceu na pessoa que está vivendo o luto.

Um dos fatores que influencia em como o luto será vivenciado está relacionado ao vínculo estabelecido entre o animal e seu dono. Quanto mais intenso for o apego ao animal, mais intenso será o sentimento da perda do animal. Outro fator a ser considerado é o papel que o animal ocupa na família, pois muitas vezes o animal entra na vida de uma pessoa como algo que ajude a pessoa a lidar com alguma situação difícil, como uma separação conjugal, desemprego ou morte de um familiar.

Como não existem regras sociais para vivenciar o luto por um animal de estimação, muitas pessoas não demonstram seus sentimentos. Temem sofrer críticas ou serem considerados inadequados ou insanos pelo luto de um animal considerado inferior na nossa cultura. Isso certamente não ajuda na resolução do luto. Manifestar o luto é uma questão pessoal, que precisa de aceitação e suporte social. Entretanto, a falta de suporte social faz com que a pessoa se sinta imbuída de manter a sua rotina, inibindo seus sentimentos.

Além da tristeza característica do processo de luto, o sentimento de culpa também deve ser considerado, sobretudo nos casos em que a morte do animal foi consequência de um acidente. O dono tende a se questionar se houve negligência ou se poderia ter evitado. Nestes casos, assim como nos casos de eutanásia, o papel do veterinário pode ser importante no sentido de auxiliar no processo do luto, prestando as informações técnicas importantes e tranquilizando o dono do animal sobre os procedimentos e tomadas de decisão.

Apesar de o processo de luto ser similar ao luto experimentado pela perda de uma pessoa, o tempo de resolução do luto tende a ser mais curto. Mas algumas atitudes podem ajudar nesse processo como falar sobre a perda com amigos que se importem com seus sentimentos, postar um obituário em redes sociais, realizar um sepultamento em cemitério de animais ou em alguma propriedade, ajudar nas necessidades de abrigos de animais são alguns exemplos de ações que podem ajudar a diminuir a intensidade do sentimento pela perda do companheiro. E quando se sentir pronto, adote um novo companheiro!