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Maternidade Interrompida

Por Alexandra Bender Nabinger

A perda gestacional espontânea, que pode acontecer de várias formas e por diversos motivos, é uma das vivências mais complexas na vida de um casal. A morte antecipada de um bebê que não nasceu é uma situação obscura, repleta de questionamentos, de inferências e de vazio. A mãe, protagonista deste drama familiar, vive uma experiência singular, dolorosa e, algumas vezes, solitária. Frequentemente, o companheiro, os parentes, os amigos, até mesmo equipes de saúde, não estão preparados para acolher esta “mãe interrompida”.

Melancolia, negação e aceitação fazem parte do processo de luto. No entanto, este não é um luto típico, ou seja, que foi cogitado ao longo da vida; é um acidente da natureza. É a interrupção abrupta do amor gestado. Crenças de fracasso e de culpa se ativam quase imediatamente após a morte fetal, gerando extrema vulnerabilidade, sofrimento e desamparo à mulher. A identidade feminina fica abalada e a relação conjugal, fragilizada. O medo de não poder ter filho (ou outro filho) e a necessidade de explicações para o triste desfecho inundam o primeiro momento desta dolorosa situação. Desta forma, pode-se dizer que a construção deste luto necessita, paralelo à elaboração da perda, da capacidade de significação da dor e de re-significação da vida. As mulheres que sofreram perda de embrião ou de feto, ao contrário do que se pensa, desejam, na maioria das vezes, falar sobre sua dor. O uso da palavra auxilia no intrincado mecanismo de validação do sofrimento e da aceitação da não existência do filho.

Além da imensidão do luto fetal, a mulher depara-se, por vezes, com o despreparo dos outros em lidarem com o seu momento. Esta situação materna parece tão contraditória que as pessoas que cercam a mãe enlutada, não raramente, adquirem comportamento de evitação e esquiva. Em outras palavras, muitos indivíduos não suportam a violência deste paradoxo natural e “fogem” do enfrentamento desta condição. Além de tudo, a interrupção da gestação é, correntemente, desvalorizada ou ignorada por aqueles que precisariam estar fornecendo amparo à mulher. Nos relatos de mães que tiveram perdas gestacionais, no livro Maternidade Interrompida (Maria Manuela Pontes, Ed. Ágora, 2009), várias falam sobre a sensação de solidão e abandono durante suas experiências. No prefácio deste livro, a psicóloga Maria Helena Pereira Franco faz excelente colocação sobre a inabilidade dos familiares e pessoas próximas à mãe: As mulheres que têm sua gravidez interrompida vivem uma experiência solitária e incomunicável. Não ha códigos comuns entre os atores desse cenário, sejam eles médicos, enfermeiros, familiares ou até o companheiro. Como dizer de uma dor para quem não suporta ouvi-la, para quem tem dificuldade de simplesmente ficar ao seu lado, mesmo sem ter de propor medidas a tomar ou soluções infalíveis? Por isso a solidão.

A dor de uma gestação interrompida é intransferível e inexplicável. No entanto, felizmente, é suportável. Cada mulher tem o seu tempo de entendimento e de recuperação. Se houver espaço e acolhimento para que esta dor seja adequadamente vivida, provavelmente, esta mulher conseguirá recuperar esperança e, assim, fazer as pazes com ela mesma e com o mundo.